Quando o Julgamento Substitui o Sentir
- Pedro Gatti Lima
- 12 de jan.
- 2 min de leitura
Atualizado: 25 de jan.

Comparar histórias é algo comum, quase automático. Acontece nas conversas, nas redes sociais e também dentro de nós. Muitas vezes parece uma tentativa de entender o mundo, mas acaba reduzindo experiências que são, por natureza, complexas e singulares.
No início do ano, esse movimento tende a se intensificar. Olhamos para trajetórias, escolhas e condições de vida como se fosse possível organizá-las em uma escala invisível: quem teve mais, quem teve menos, quem estaria “autorizado” a se sentir de determinada forma. Nesse processo, o contato com a experiência emocional vai ficando em segundo plano.
É assim que algumas pessoas começam a se envergonhar da própria história. Vergonha por terem estudado em um colégio considerado bom, por terem recebido apoio, por terem sido cuidadas em aspectos simples do cotidiano. Gestos como uma mãe que preparava marmitas, por exemplo, passam a ser vistos com culpa, como se anulassem conflitos ou sofrimentos reais.
Mas essa lógica também aparece quando reduzimos o outro apenas às faltas que viveu. A ausência, por si só, não define profundidade, maturidade ou força psíquica. Cada pessoa constrói recursos e também feridas a partir de muitos atravessamentos — emocionais, relacionais, simbólicos — e não apenas das condições materiais.
Quando histórias viram argumento, algo se perde. Em vez de escutar o que foi vivido, passamos a avaliar se aquilo explica ou justifica o que se sente hoje. O passado vira medida, defesa ou acusação, e a experiência emocional deixa de ser escutada como ela se apresenta.
Aos poucos, a pessoa vai se afastando do que sente. Em vez de perceber a tristeza, a angústia ou o incômodo, passa a analisá-los. Pergunta-se se aquilo é exagero, se deveria já ter superado, se faz sentido sentir assim diante da própria história. Quando isso acontece, o julgamento ocupa o lugar da experiência.
Julgar a própria história — ou a do outro — pode funcionar como uma proteção. Ao analisar e justificar, evitamos o contato direto com aquilo que dói. Mas o sofrimento que não encontra espaço para ser reconhecido não desaparece; ele apenas fica suspenso, esperando uma escuta que não vem.
Talvez um movimento importante seja permitir que a experiência venha antes da explicação. Reconhecer o que se sente sem comparar, hierarquizar ou validar externamente. A história não precisa ser defendida para ser escutada. O que foi vivido importa pelo efeito que teve — não pela posição que ocupa em relação à vida do outro.
A psicoterapia pode ser esse espaço onde a experiência é acolhida antes de ser julgada. Um lugar para recuperar o contato com os próprios sentimentos, sem a necessidade constante de se explicar. Quando o julgamento diminui, a escuta se aprofunda — e algo internamente começa a se reorganizar.











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