A Sombra Que Te Observa nas Reuniões de Fim de Ano
- Pedro Gatti Lima
- 8 de dez. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 25 de jan.

As festas e reuniões de fim de ano costumam trazer momentos de encontro, conversas e celebrações. Mas, para muitas pessoas, esse período também desperta ansiedade e um sentimento de exposição. Estar em grupo, reencontrar familiares ou colegas e precisar “funcionar” socialmente pode acionar medos silenciosos: o receio de não corresponder, de parecer deslocado ou de ser julgado.
Grande parte dessa dificuldade tem relação com a imagem que aprendemos a apresentar ao mundo — aquilo que Jung chamou de persona. Essa parte de nós tenta se adaptar, ser aceita, cumprir expectativas. Ela nos ajuda a viver em sociedade, mas às vezes fica rígida demais, fazendo com que esconder nossas vulnerabilidades pareça obrigatório. E nos encontros de fim de ano, onde todos parecem buscar leveza, nossa persona pode se sentir especialmente pressionada.
Quando tentamos aparentar controle e adequação o tempo todo, acabamos escondendo aspectos importantes de quem somos. Medos, inseguranças, desejos, espontaneidade — tudo isso vai sendo empurrado para dentro da sombra, que é simplesmente a parte de nós que não recebeu permissão para existir. Em momentos sociais, essa sombra tenta aparecer de alguma forma, e muitas vezes se manifesta como ansiedade.
Também é comum que essas situações despertem uma sensação de insuficiência. Muitas pessoas carregam sonhos e habilidades que nunca se permitiram explorar, seja por medo de errar, de não serem boas o bastante ou por terem internalizado cobranças muito antigas. A cada pergunta sobre a vida, a cada comparação implícita, a sombra pode doer um pouco mais — lembrando o que foi deixado de lado, adiado ou reprimido.
Essa tensão interna faz com que encontros sociais não pareçam apenas encontros, mas pequenos testes. O desconforto cresce, não apenas pelo olhar do outro, mas pelo olhar crítico que temos sobre nós mesmos. E, aos poucos, a própria convivência se torna cansativa, como se fosse preciso sustentar uma versão cuidadosamente editada o tempo inteiro.
Mas existe outro caminho. Em vez de tentar fortalecer ainda mais essa máscara social, o convite é o de olhar com gentileza para aquilo que ficou escondido. A sombra não é inimiga — ela contém partes vivas, criativas, espontâneas e humanas que foram deixadas para trás. Quando começamos a acolhê-la, algo dentro de nós relaxa. O peso diminui. A vida social também se torna menos ameaçadora.
Integrar a sombra é um processo delicado, que pede tempo, paciência e um espaço seguro. A psicoterapia pode ser exatamente esse lugar onde é possível conversar sobre esses medos, entender essas partes escondidas e, pouco a pouco, fazer as pazes com elas. Quando isso acontece, nasce uma liberdade silenciosa: a de ser quem se é, sem tanto medo, sem tanta defesa.
No fim, encontrar e abraçar nossa sombra não apenas reduz a ansiedade social — também nos devolve vitalidade, autenticidade e a capacidade de estar no mundo de forma mais inteira.











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